terça-feira, 29 de maio de 2018


OS TRÊS SARGENTOS

Para tentar explicar porque a intervenção militar de qualquer tipo não é uma boa ideia, vou contar uma história de três personagens verídicos dessa nossa parcela da sociedade que as pessoas pensam que conhecem.
Eu fiz o serviço militar obrigatório. Durante esse tempo conheci alguns militares de carreira mas vou enfatizar apenas três por suas caraterísticas específicas.
O primeiro deles, o bonachão. Era o responsável pelo meu grupo quando fazia a instrução pela tarde. Os soldados gostavam dele porque era essencialmente relaxado. Dava as ordens minimamente necessárias, nos deixava à nossa própria sorte. Durante as guardas a gente podia ver ele chegando pouco antes do amanhecer, bêbado como um gambá. Costumava frequentar os puteiros da cidade. O grande problema é que havia também um tenente que comandava o qualquer e não raro vinha supervisionar os serviços do grupo, e quando isso acontecia sempre éramos punidos porque os serviços sempre estavam atrasados e para piorar, quando o sargento tomava bronca descontava na gente, nos fazendo trabalhar em dobro e distribuindo guardas.
O segundo talvez fosse o mais correto, mas era ignorante como uma pedra. Não tinha habilidade alguma como líder, quando passava ordens ninguém as entendia. A gente se acostumou a ir pelo tom de voz e bater continência ou sair correndo para fazer algo, apenas para quando estivéssemos longe da vista parávamos e tentávamos descobrir o era para fazer, as vezes, nada, só para enganá-lo. E de novo, quando tinha inspeção, tínhamos que fazer tudo de novo, ou estávamos atrasados.
O terceiro era o mais inteligente, educado e calmo. Ótimo não? Nem tanto. Costumava favorecer os seus favoritos. Sempre negligenciava os outros soldados dos outros grupos, quando não, também os do seu próprio grupo que não eram de sua graça. Os que não eram os favoritos acabavam por serem desleixados, mas também os outros, porque quase nunca levavam bronca. Mas, o mais grave era que esse favorecimento ia para outros níveis também. Havia uma competição de tiro, lembro bem que fiquei em primeiro no meu grupo e não vi ninguém melhor do que eu em nenhum dos outros grupos. Acontece que quem decidiu quem iria competir pelo quartel na regional era esse sargente e ele simplesmente levou somente os meus amigos mais chegados. Soa familiar, não? (favorecimentos políticos).


Mas, qual o sentido de toda esta história?
Percebam, a ideia não é criticar individualmente cada uma destas pessoas, mas sim demonstrar que quem está no exército são pessoas comuns, passíveis de falhas, como todos nós.
Exigir a intervenção militar não é garantia de termos um país melhor, muito pelo contrário, os políticos ao menos passam por algum tipo de crivo; pela população, pela mídia, pelos próprios partidos, pelo Tribunal Eleitoral, pela Receita Federal. E os militares? Com certeza não.
Ao que tudo leva a crer, pelas nossas experiências passadas e pelo que vemos ainda hoje, uma intervenção militar tem grandes chances de ser um absoluto desastre. Está ruim de fato e temos que mudar agora, imediatamente, mas intervenção militar simplesmente não é o caminho a ser seguido.