OS TRÊS
SARGENTOS
Para tentar
explicar porque a intervenção militar de qualquer tipo não é uma
boa ideia, vou contar uma história de três personagens verídicos
dessa nossa parcela da sociedade que as pessoas pensam que conhecem.
Eu fiz o serviço
militar obrigatório. Durante esse tempo conheci alguns militares de
carreira mas vou enfatizar apenas três por suas caraterísticas
específicas.
O primeiro deles, o
bonachão. Era o responsável pelo meu grupo quando fazia a instrução
pela tarde. Os soldados gostavam dele porque era essencialmente
relaxado. Dava as ordens minimamente necessárias, nos deixava à
nossa própria sorte. Durante as guardas a gente podia ver ele
chegando pouco antes do amanhecer, bêbado como um gambá. Costumava
frequentar os puteiros da cidade. O grande problema é que havia
também um tenente que comandava o qualquer e não raro vinha
supervisionar os serviços do grupo, e quando isso acontecia sempre
éramos punidos porque os serviços sempre estavam atrasados e para
piorar, quando o sargento tomava bronca descontava na gente, nos
fazendo trabalhar em dobro e distribuindo guardas.
O segundo talvez
fosse o mais correto, mas era ignorante como uma pedra. Não tinha
habilidade alguma como líder, quando passava ordens ninguém as
entendia. A gente se acostumou a ir pelo tom de voz e bater
continência ou sair correndo para fazer algo, apenas para quando
estivéssemos longe da vista parávamos e tentávamos descobrir o era
para fazer, as vezes, nada, só para enganá-lo. E de novo, quando
tinha inspeção, tínhamos que fazer tudo de novo, ou estávamos
atrasados.
O terceiro era o
mais inteligente, educado e calmo. Ótimo não? Nem tanto. Costumava
favorecer os seus favoritos. Sempre negligenciava os outros soldados
dos outros grupos, quando não, também os do seu próprio grupo que
não eram de sua graça. Os que não eram os favoritos acabavam por
serem desleixados, mas também os outros, porque quase nunca levavam
bronca. Mas, o mais grave era que esse favorecimento ia para outros
níveis também. Havia uma competição de tiro, lembro bem que
fiquei em primeiro no meu grupo e não vi ninguém melhor do que eu
em nenhum dos outros grupos. Acontece que quem decidiu quem iria
competir pelo quartel na regional era esse sargente e ele
simplesmente levou somente os meus amigos mais chegados. Soa
familiar, não? (favorecimentos políticos).
Mas, qual o sentido
de toda esta história?
Percebam, a ideia
não é criticar individualmente cada uma destas pessoas, mas sim
demonstrar que quem está no exército são pessoas comuns, passíveis
de falhas, como todos nós.
Exigir a
intervenção militar não é garantia de termos um país melhor,
muito pelo contrário, os políticos ao menos passam por algum tipo
de crivo; pela população, pela mídia, pelos próprios partidos,
pelo Tribunal Eleitoral, pela Receita Federal. E os militares? Com
certeza não.
Ao que tudo leva a
crer, pelas nossas experiências passadas e pelo que vemos ainda
hoje, uma intervenção militar tem grandes chances de ser um
absoluto desastre. Está ruim de fato e temos que mudar agora,
imediatamente, mas intervenção militar simplesmente não é o
caminho a ser seguido.