quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Você Pensa Estar Ofendendo


Você Pensa Estar Ofendendo

Nos dias de hoje, se importar com educação de qualidade e um sistema social mais justo é quase uma ofensa à uma parcela da sociedade.
Vejo dois impostos no horizonte que deveriam ser cobrados e que recebem fortes críticas, inclusive de quem iria diretamente se beneficiar a eles.
O primeiro é o famigerado imposto sobre grandes fortunas. Está previsto em nossa constituição, mas nunca foi posto em prática. Norma de eficiência não eficiente...
Pouco importa se existem apenas dois países no mundo que não o cobram. Pouco importa se até países neo-liberais como Inglaterra e EUA têm esse tipo de imposto e já o teve em alíquotas muito mais altas. No Brasil, dizem, se for implementado irá afugentar os investidores, não é o que a história diz...
Mas, meu foco de crítica é o Imposto de Renda sobre os dividendos. Esse, ao que parece, está em vias de ser implementado. Por mais que esteja nos planos do atual governo, mais à direita e de viés ultra neo-liberal, ainda assim recebe críticas dos rentistas.
A principal crítica que pude observar é de que as empresas já pagam impostos, portanto, não seria necessário, ibs idem, dupla tributação. No entanto, rebato, a tributação não dá para as empresas, o passivo nesse caso é quem recebe os dividendos, não quem os distribui.
Há também o argumento a favor dizendo que as empresas seriam desoneradas da produção. Não acredito nessa possibilidade em um primeiro momento.
Mas, quero mostrar que, por mais que se critique a criação de impostos, e eu também não gosto disso, há de se compreender que vivemos em uma sociedade (quase um palavrão, mas não me desculpo...).
A vida em sociedade tem seus custos. Mas a maioria das pessoas tem dificuldade de enxergar para onde vai o dinheiro, e sejamos justos, também tem é muita preguiça de acompanhar os gastos do governo.
No entanto, a cegueira social é o meu principal ponto. Quase ninguém consegue enxergar de forma macro o uso dos impostos.
Para tanto, irei colocar como exemplo uma escola pública.
Valos lá. Para começar, o imposto paga o salário dos professores e funcionários. Essa é a maior categoria individual dos funcionários públicos e também dos trabalhadores em geral. Só aqui já é possível combater grande parte do desemprego e melhorar a renda geral dos trabalhadores.
E veja, esse grande número de pessoas são também consumidores. Ou seja, com renda melhor e mais gente empregada também se compra mais sandálias (Grandene), cosméticos (natura), eletrodomésticos (Magazine Luiza), viaja-se mais (Marcopolo) e até compra-se mais imóveis (MRV) e faz-se mais empréstimos para pagá-los (Itaú). Perceba que tive o cuidado de colocar apenas algumas empresas listadas na bolsa, empresas que cresceriam mais, seriam mais valorizadas e adivinhem, distribuíram mais dividendos....
Isso é a vida em sociedade, a melhora ou a piora em um setor, costuma influenciar o outro.
O maior problema no Brasil é que historicamente costuma-se favorecer apenas os setores superiores, negligenciando-se os de base, justamente os que têm maior possibilidade de influenciar para melhor ou para pior a situação de todos.
Mas, há ainda um outro lado ainda mais perverso e capaz de grandes mudanças. Os recentes cortes na educação já chegaram diretamente às escolas públicas do país todo. Boa parte da verba que costumava vir secou, já não vem mais.
Aí pensa o pobre de direita (toda a classe média na verdade), ótimo, menos dinheiro gasto a toa.
Pois é, não é bem assim
Um dos setores afetados é o da merenda escolar.
Agora preste atenção na cadeia de eventos.
Então há menos dinheiro para a merenda, por consequência passa a gastar menos com as compras, e assim, também ganha menos dinheiro quem produz os alimentos. Lá se vai mais um setor pra crise.
Os alunos passam a comer menos na escola, o que força os pais a gastar mais dinheiro com alimentação, ou seja, supérfluos vão para escanteio e outros setores passam a faturar menos.
A alimentação tenderá a ser de má qualidade, aumentando assim a quantidade de doentes e pondo ainda mais pressão no já saturado sistema de saúde.
A qualidade dos estudos cairá ainda mais, e, no longo prazo, teremos uma mão de obra ainda menos qualificada. Mais desemprego, menos produtividade.
E quanto a violência? Pois é, o assunto é polêmico. Mas, quero que pense como adulto e como criança. Quanto você já desejou algum objeto de consumo? Qualquer coisa! Se tem condições, compra, se dá economiza, parcela dá um jeito. Se é muito caro apenas sonha, quem sabe um dia... Pois é, para muitos não existe quem sabe um dia, nem mesmo para coisas pequenas com um tênis, um notebook, um vídeo game, um celular. Para uma parcela da sociedade é ainda pior, espera-se o dia para uma refeição decente, roupas, moradia. Não nem sequer esperança. Por mais que seja culpa do próprio criminoso, pelas escolhas que as pessoas fazem, o que esperar de um adolescente que passou a vida vendo outras pessoas desfrutando de coisas que ele nem esperança nutre para ter um dia. O único caminho que enxerga é o da criminalidade, muitas vezes sem volta.
Então, aqui vai novamente o meu palavrão.
Vivemos em sociedade. Tudo está interconectado.
Querer e pedir por uma sociedade mais justa não é um ato de altruísmo em si, pra mim é um ato de sobrevivência, de egocentrismo.
Quero uma sociedade mais justa para que eu possa viver tranquilo, para que minha filha possa ter um bom futuro, para que eu, professor, possa ter também as coisas que outras profissões podem adquirir.
Portanto, quando me chama de socialista, comunista, esquerdista, você pensa estar me ofendendo, não está.
Sou mais capitalista e liberal do que pensa, apenas de uma forma diferente.